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Nasci contrariando o ultrassom do médico que primeiro disse que eram gêmeos e depois consertou dizendo que era apenas um menino. Para a alegria da minha mãe e talvez não tanta alegria assim do meu pai, nasci menina. Com os olhos extremamente pretos e bem abertos, encarando o quarto e as pessoas. Eu era um bebê meio alienígena e independente - segundo a minha mãe. Eu praticamente não dei trabalho, pois NUNCA fiquei doente nessa época, o que é extremamente raro em se tratando de bebês. E eu também me virava sozinha com várias coisas.

Minha mãe nunca se esqueceu de uma vez em que eu era bem novinha e ainda não falava sequer "papai" ou "mamãe".  Ela me colocou na banheirinha e eu achei a água muito quente, então  simplesmente saquei de algum lugar do meu cérebro quase virgem a palavra "quente" e a pronunciei duas vezes num tom robótico e sem emoção. 

Quando sujava as fraldas, eu apenas afastava as pernas para não ficar em contato direto com o xixi / cocô e voltava a dormir. Não me engasgava, porque aprendi a fungar ainda recém-nascida. Também aprendi a andar mais cedo que o normal, era do tipo que escalava para fora do berço e até hoje ninguém sabe como, uma vez quando não tinha ninguém olhando, desci sozinha e bem de boas uma escada íngreme de pedra no quintal da casa dos meus avôs numa época em que eu ainda mal engatinhava. 

Meu primeiro crush foi o Arnold Schwarzenegger quando eu tinha seis meses. Minha mãe ia malhar na academia e me deixava no carrinho de frente para um pôster enorme do Conan, o Bárbaro, e eu ficava – literalmente  babando para o pôster enquanto o encarava. As pessoas que passavam sempre diziam 'parece que o bebê gostou do Arnold". Claro que o meu carrinho estava de frente para ele e eu não tinha muita opção de lugares para olhar e mesmo que fosse um pôster do Faustão, eu olharia e babaria do mesmo jeito. Mas, ainda assim, acho que mereço crédito de ter sido a fã mais jovem do Arnoldão.




Todavia, se fui um bebê índigo, cristal, alienígena ou seja lá o que for, não evoluí muito mais do que isso, pois logo que cresci fui ficando meio burrinha e avoada. Minhas notas só caíam e eu tinha vários problemas sociais na escola.






Aprendi a ler e a escrever com cinco anos e já comecei aí mesmo a criar meus livrinhos na máquina de escrever do meu avô. Eu escrevia tudo muito errado, entretanto, era bastante criativa, rimava bem e sempre inventava um começo, meio e fim que fugisse do senso comum. Bastava uma revisão - minha mãe corrigindo meus erros gramaticais e os de coesão/coerência - para que minhas obrinhas passadas a limpo ficassem bem interessantes. Mas a maioria das coisas que eu escrevia nem era para a escola. Eu fazia em casa como hobby mesmo. Na escola, eu era péssima em tudo, inclusive em português. Embora muitas vezes os professores tenham me acusado de plágio por acharem que minhas redações estavam boas demais para serem minhas e que só havia erros gramaticais nelas porque eu não soube copiar direito. Numa época sem internet (para eles pesquisarem as tais histórias online e não encontrarem nada, é claro) era bem mais difícil provar minha inocência. 

No mais, eu sempre fiz muita bagunça, gazeava aula, era recriminada constantemente por andar no meio dos meninos e por ser meio “tomboy”. Eu cheguei a jogar bola sem camisa (e sem sutiã) com os meninos por mais tempo do que seria socialmente permitido para uma menina. E também não prestava atenção nas aulas, colava nas provas e muitas vezes fiz a tarefa de qualquer jeito cinco minutos antes de o professor chegar (quem nunca?)  

Desde pequena, gostava de ler gibis, livrinhos e escrever (e ilustrar) minhas próprias historinhas. Escrever na companhia de uma boa música era melhor ainda... :)

                                                      

Mas como diria o grande (pequeno, vai) Paul Simon: após mudanças em cima de mudanças, somos mais ou menos os mesmos. #TheBoxer

                                                             

Também fazia uns rabiscos despretensiosos e dos 5 aos 10 anos fiz um livrinho padronizado. Pedia para uma pessoa bem gabaritada (minha mãe) corrigir a minha tenebrosa gramática antes de fazer a versão oficial e a capa era sempre com aquele papel brilhante que parece sulfite e com as clássicas forminhas de escrever. Até que ficavam bonitinhos. 

                                             

                                             


Na sexta e sétima série, comecei a sofrer muiiito bullying, pois meu estilo tomboy começou a ficar mais evidente e menos aceitável do que quando eu era mais criança. Não usava maquiagem, esmalte, estava sempre descabelada e com roupas largas. Era a única menina da sala que gostava de filme de ação. Minha paixão pelo Arnold cresceu comigo e se alastrou para os parças: Stallone, Van Damme, Jackie Chan, Bruce Lee, Chuck Norris, Bruce Willis, etc.. e era  também louca pelo wrestling (luta livre) da WWF. Nessa época, era moda os meninos usarem a calça meio abaixada, deixando um pedaço do samba-canção à mostra. Eu também fazia isso. Sim, exibia o meu samba-canção. É, eu vestia samba-canção às vezes. (Meus pais nunca souberam disso...)

Nunca fui “do vale” e nem tive dúvidas quanto a isso, porque eu sempre fui louca por meninos, embora as pessoas sempre achassem que eu era. Desde os onze, doze anos, sempre tive grande fascínio em ver dois homens juntos. Meu filme favorito do Leonardo DiCaprio (na época em que Titanic e O homem da máscara de ferro estavam no auge do auge) era Eclipse de uma paixão (em que ele interpretava o poeta Rimbaud que viva um romance com Verlaine). Sempre curti filmes e livros que narrassem o romance entre dois homens e as pessoas falavam que eu era estranha por causa disso. Sem internet para constatar que isso era mais comum do que se imaginava, eu realmente parecia estranha por isso.


Aos doze (quase treze) anos, em 1999, lancei um pequeno romance de cinquenta páginas chamado "Os cabeludos da Jukebox".  Como era de se esperar, tem uma pegada LGBT. E contém algumas partes um tanto polêmicas... Mas leiam e tirem suas próprias conclusões. 

                                       


                                       


Como disse, apesar das polêmicas, eu gostava só de meninos, mas gostava tanto deles a ponto de querer estar só com eles e ser como eles.

“você tem que se vestir como uma menina e não como um menino, senão ninguém vai gostar de você”. Diziam-me frequentemente, mas eu já estava de saco cheio desses colegas e queria ser tomboy em paz e queria abraçar a causa LGBT (que na época se chamava apenas GLS). E o bullying aumentou em quase 100%. 

Nos anos noventa, não existia redes sociais nem grupos unidos acerca desse tema. Era impensável você defender a causa na escola e sair ileso. Era mais do que comum a galera rir e fazer piadinhas acerca da homossexualidade alheia e sobrava até para quem defendesse. Por isso, mesmo que alguém não concordasse, ele preferia rir junto do que se posicionar e ser atacado também. Como eu fazia isso sozinha, sobrava muito bullying para mim também.




Como consequência, os colegas me zoavam (e não eram só as meninas. Os meninos que eu tanto idolatrava faziam o mesmo), todo mundo na sala me olhava torto, tudo que eu falava era motivo de vaia, faziam fofoca, me excluíam na aula, no recreio, na educação física, nas atividades em grupo ou dupla (eu sempre ficava sozinha). Muitas vezes a agressão verbal evoluía para a física e saíamos “no tapa" na hora da saída ou no intervalo. Meus dois amigos supostamente gays (não chegaram a se assumir naquela época, mas também não tinha nem como, dadas as circunstâncias...) nunca caiam na mesma classe que eu. Cada um ficava excluído em um canto diferente e os professores nem tentavam resolver essa questão. Agiam como se a culpa fosse dos excluídos que não queriam se enturmar. Era surreal, mas como eu não era boa aluna, não me comportava direito e, apesar de ser tímida, era bastante respondona, eles não sentiam muita empatia, carinho ou vontade de ajudar. 

Por outro lado, minha irmã nunca foi da causa GLS, nunca foi tomboy e nem bagunceira. Era boa aluna (loira, alta, magra - tinha tudo pra ser popular) e mesmo assim ela também era zoada e excluída, então não sei onde realmente estava o problema...

E isso tudo em um colégio particular e católico... No ano seguinte, quando a situação já estava completamente insustentável, mudei para um colégio público bem melhor onde permaneci até me formar no terceiro ano e as coisas se acertaram bastante. Continuei arteira e má-aluna, mas só nas exatas, pois fui ficando boa em inglês, história e português para balancear a conta. Também tive alguns problemas por conta do meu estilo, mas só com algumas pessoas e não com a sala inteira. Nada que pudesse ser comparado ao antigo colégio.




Entretanto, minha infância e adolescência sempre foi muito saudável e feliz (principalmente fora da escola). Vivia rolando na lama, chuva, grama e areia. 

                                             


              



Vivia suja de lama e meus pais me chamavam de Oinc-Oinc, Suína, Cascão etc. Entre outras porquices, eu tinha a mania de dormir de uniforme para já acordar pronta na manhã seguinte. Só não dormia de tênis, pois experimentei uma vez e achei muito desconfortável ficar com o pé para fora da cama a noite inteira. Hahaha. Mas eu desenvolvi uma brincadeira que me fez amar o chuveiro no fim do dia.

Eu e os meninos brincávamos de sequestro ou de guerra, e rolávamos pela lama atirando ou tentando fugir do sequestrador (dependendo da brincadeira). Fingíamos que já estávamos há cinco dias sem comer, beber água, tomar banho... Uma vez, entramos tanto na história que quase pedimos ajuda de verdade para transeuntes na rua. Às vezes, a brincadeira terminava em estado terminal de imundice. O cabelo grudava na cara inteira e eu ficava tão enlameada que parecia o Chewbacca voltando do Woodstock.  Entrava em casa no fim da tarde tão suja, fedida, suada, acreditando que eu não tomava banho e comia direito há dias e que finalmente consegui voltar da guerra / fugir do sequestrador que eu valorizava cada gota de água do meu banho quente, o sanduba e Nescau da “janta” e até mesmo sentar para fazer a tarefa de casa e ver tv com a família se tornavam momentos que eu valorizava. Eu fui minha própria terapeuta.  

A melhor coisa da minha infância e começo da adolescência foram as colônias de férias que eu sempre ia e tinha umas experiências bem loucas (ah, mas eu vou ficar quieta nessa parte...)Também tinha outras brincadeiras com minha sister e com outros vizinho, como nadar, videogame, patins, bike, sinuca, subir em árvore, reunião pra contar história de terror à noite, muitas coisas, (anos noventa, né? o que não tinha de internet, tinha de brincadeiras) e até mesmo boneca. Já brinquei muito de boneca nessa vida. Também tive um lado "menininha". Era fã dos Hanson e de um monte de coisas pop da época.

Na adolescência, comecei a gostar de música dos anos 60, principalmente americana, britânica e francesa, e também de cinema antigo. Algo que me deixou ainda mais como uma estranha no ninho. Virei uma verdadeira "old soul", característica que ainda tenho, embora hoje, na minha idade e também com o advento da internet, isso já não choca mais ninguém. Mas, acreditem, no início dos anos 2000 a situação era bem diferente.


 


No primeiro ano do ensino médio, sem mais nem menos, resolvi que queria ser roteirista de cinema e liguei para a Daiane (Gunser) que era minha melhor amiga da época e a convidei para escrever comigo. Achei que seria mais divertido fazer isso em dupla. E foi. Durante três anos, escrevemos dois roteiros (e meio) de longa-metragens,  gravamos três curtas (lado Z. hahah) e provavelmente engordamos uns cinco quilos no processo.  

Nossa parceria cinematográfica terminou quando fomos para a faculdade em cursos e cidades diferentes e nada voltou a ser como era antes :( 





Voltando aos livros, publiquei três livros (um de poesias e dois de contos) no modelo self-publishing em uma editora chamada I-Proclain de Pittsburgh – EUA:

Don’t back down from that wave (2008)
A chuva, o parque, as flores e outras coisas (2009).
The next Sunset (2011)



Simultaneamente, fui escrevendo Cowabunga! Desventuras de um ex-surfista. Lançado em 2014.  "Cowabunga!" foi um dos finalistas do primeiro concurso literário da Benvirá (Saraiva) e publicado pela mesma editora. :) 






Também, simultaneamente, comecei a escrever um livro com minha hermanita. Ela ama as letras (apesar de ter feito Fisioterapia e hoje ser funcionária pública federal) e também escrevia seus próprios livrinhos quando criança. Mas se você for um bom Sherlock Holmes e cavar bem a terra, poderá encontrar duas coletâneas em que ela publicou poemas no fim dos anos noventa.

Voltando ao que interessa, escrevemos juntas o livro Solidão na corda bamba. É um livro bem divertido e emocionante. Conta a história de uma adolescente que sofre bullying na escola. (será que algumas partes foram inspiradas em nós?) Ela é violinista e sonha ganhar um disputadíssimo concurso de violino cujo prêmio é uma bolsa de estudos em uma conceituada escola de música. 



Publiquei em 2019 o livro "Do desafinado eu tirei o dó" no Kindle/Amazon.
Perdoem a capa à la "Cabeludos do Jukebox", mas eu não sei fazer capa e o próprio autor tinha que fazer, então dei uma improvisada... Mas eu prometo que a história é bem melhor que a capa... hehehe! Vão lá conferir!




Também estou finalizando um livro sobre uma aventura nada convencional nos Alpes Suíços – em parceria com meu amigo da Suíça. (Curiosamente, o sobrenome dele é Fuhrer. Não que isso signifique algo ruim. Ou bom... mas é válido que seja  mencionado.) O livro se chamará Folllow the wind.

Atualmente, canto como contralto no Coro Municipal de Cascavel e participo do Projeto Literário Livrai-Nos, juntamente com outros autores da minha cidade. Também gosto de brincar no teclado e violão. Pratico artes marciais (Kung fu e Sanda), gosto de estudar línguas (falo inglês, francês e espanhol) e continuo old soul. Amo coisa vintage, música, cinema, livros, viagens. E sigo sendo a fã número um do Arnoldão. :)



Hasta la vista, Baby!