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30 de out. de 2013


O dia em que Tyrone Power morreu foi o dia em que todos os garotos da matinê sentiram que a concorrência fora consideravelmente aliviada. Porém, nunca completamente aniquilada. Nos anos cinquenta, tornava-se comum a morte prematura de astros hollywoodianos. O que isso afetava em nossas vidas de telespectadores além do óbvio fato de que não mais os veríamos em lançamentos? Tudo e nada ao mesmo tempo.

Em nossa distante realidade, todos os garotos entre doze e quinze anos possuíam um esquema de sentar nas matinês de domingo. Funcionava da seguinte maneira: quando alguém se interessava por uma garota, seus amigos e também as amigas dela facilitavam para que "acidentalmente" após a baderna da entrada, os dois se sentassem lado a lado. Era um código de honra. Todos cooperavam, pois sabiam que quando precisassem, receberiam de volta a ajuda necessária.

O nosso drama maior, no entanto, era causado pelas próprias garotas. Não importava quem estivesse ao lado ou a quantidade extra de doces que comprávamos para surpreendê-las quando seus estoques se esgotavam ainda no meio do filme. Nada importava. Elas prestavam atenção somente nos Tyrones da tela.

O problema nem começou com ele e certamente não terminaria com ele também. Arrastava-se havia tempos. Anos antes já ouvíamos falar de como o Tarzan Johnny Weissmuller roubava a cena até sua precoce aposentadoria equiparar-se à morte e ele ser prontamente substituído.

Quando James Dean morreu, para as meninas era o rebelde idealizado do cinema que morria na vida real colidindo os dois mundos. Sentiam-se viúvas enquanto nós apenas pensávamos: "um a menos! Agora falta o Brando".

Depois de superada a fase "as sessões nunca mais serão as mesmas", estávamos todos ali na semana seguinte disputando atenção com Montgomery Clift, Rock Hudson, Charlton Heston, Jimmy Stewart, Steve McQueen, Paul Newman, Gregory Peck... Era homem que não acabava mais. Ah, e claro, um dos relacionamentos mais longos que elas já tiveram: o Hércules Steve Reeves. Trocaram o poder do olhar de Power pelos músculos do novo herói de sandálias e espadas tão rápido que até eu me sentira traído. A concorrência crescia forte.

Não é que nós não apreciávamos uma Vivien Leigh ou Hedy Lamarr de vez em quando. Tampouco odiávamos os mocinhos. É justo ressaltar que nos encontrávamos até a alma em débito com eles de tanto que imitávamos seus topetes, suas roupas e seus modos de falar. Apenas preferíamos viver no mundo real habitado por pessoas reais. Um desejo mais ilusório que os enredos grandiosos dos galãs nas fitas.

Para mim, a gota d'água foi quando arquitetei uma nova estratégia. Troquei as sessões da tarde pelas noturnas. Ao que me constava, garota alguma se interessaria por Christopher Lee. Minhas constatações, contudo, foram prontamente contestadas. Qual não fora minha surpresa ao perceber que todas as garotas descaradamente davam mais bola para o vampiro do que para nós? Já era demais!

Sabia que estava fazendo tudo errado. Meu lugar não era ali. Eu devia ser um astro de cinema. O novo Clark Gable. Assim, no clímax do enredo, quando minha garota estivesse hipnotizada me assistindo, ignorando completamente o affair ao seu lado, eu olharia da telona diretamente em seus olhos e diria: "francamente, minha querida, agora sou eu quem não dou a mínima".



Conto do meu livro "A chuva, o parque, as flores e outras coisas" de 2009.
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