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21 de dez. de 2010


Ontem eu estive em Paris. Era 1830 e eu tomava chocolate quente na casa do meu amigo Victor Hugo. Cada um de nós tinha uma máquina de escrever pesadona à nossa frente. Era uma espécie de clube do escritor para dois, exceto que eu não era uma escritora. Era uma costureira de cortinas lutando para costurar palavras em uma frase que fizesse sentido enquanto soava genial. Ele perguntou o que eu achava da premissa de um livro novo que ele escrevia, sobre um corcunda que ele ainda estava indeciso se o nomearia de Jean ou de Quasímodo (mas tenho a impressão que ele vai optar por Quasímodo) que era o sineiro da Catedral de Notre-Dame e se apaixonava por uma cigana chamada Esmeralda. Eu li um pedaço e disse que parecia promissor, mas muito triste. Ele se alegrou com isso. Perguntei se ele publicaria de forma tradicional ou online. Ele não entendeu. Eu reformulei a questão, perguntando se o livro seria em papel ou se ficaria apenas dentro do computador. Como ele não sabia o que era um computador, disse, meio confuso, que seria em papel mesmo.

Ele perguntou sobre o que eu escrevia, mas fiquei com vergonha de dizer que era só uma bobeira chick lit e contei o enredo de O Grande Gatsby como se fosse meu com a finalidade de impressioná-lo. Ele disse que era legalzinho, mas podia melhorar. Tudo bem, ele não vai viver o suficiente para descobrir Scott Fitzgerald e Scott também nunca tomará conhecimento dessa crítica. A não ser que eu o visite amanhã. E de quebra ainda entorne o caneco com Ernest. Vamos ver...

No começo do ano, eu estive na casa de Salvador Dali. Ele é muito louco. Misturamos nossas loucuras e saiu uma tela bem surreal. Vou pendurá-la em meu quarto e depois eu mostro para vocês. Mês passado, eu dancei o Twist com Chubby Checker. Ele é tão maneiro.  Não sabe se mexer tão bem, mas é o que melhor canta sobre isso. Também troquei uma ideia com meu amigo Albert, mas ele só fazia cálculos doidos e colocava a língua para fora. Não entendi nada.

Se eu me comportar bem, no meu aniversário, conhecerei John Kennedy. Só espero que ele não saia do bolo cantando “happy birthday, Mrs. Nobody” para mim. Essa parte eu dispenso. O Elvis está sendo bem difícil de conseguir um contato. Ele está guardado para uma ocasião especial. Quando eu realmente merecer. Só não sei que dia será esse, mas espero que logo.

Queria passar primeiro pelos clichês, para depois chegar aos menos conhecidos. Estou montando uma lista com o nome das pessoas que já conheci para nunca me esquecer de ninguém. É tanta gente que eu até fico confusa. Com alguns, eu só converso, com outros, a gente vive uma experiência carnal mais profunda, se é que vocês entendem...

Algumas pessoas podem achar que eu sou maluca ou que estou mentindo. Não posso atestar a minha “não loucura”, pois não tenho nenhum documento oficial que a comprove. Também não tenho nada que diga que eu seja oficialmente louca, mas eu me considero uma garota sã. Quanto à mentira, eu não sou mentirosa. Tudo que relatei é verdade. O polígrafo não me desmentiria. Acho que ele também não confirmaria, admito. Provavelmente, ele entraria em colapso.

Desde que comecei a namorar um hipnotista, minha vida mudou.  Eu era virgem de signo e de corpo, agora sou apenas no zodíaco. Começou como uma brincadeira boba. Estávamos em meu quarto. Ele me hipnotizou e me fez ver o Brad Pitt, em uma praia deserta, cada vez que eu olhava para ele. Eu nem era fã do Brad. Ele escolheu alguém aleatório para fazer um teste. E aí transamos e eu quis repetir a experiência, mas cada vez com um homem diferente. Ele já foi quase todo mundo, menos ele mesmo.


É engraçado analisar que estive com tantos homens, mas ao mesmo tempo, foi um só. E ele foi o único que ainda não conhecei realmente. Quem sabe um dia, eu conheça de verdade a pessoa por trás do “feche os olhos, um, dois, três e durma”. Só não vai ser esta noite, pois vamos para os Estados Unidos em 1995. Quero me encontrar com Christopher Reeve antes do acidente. 



Conto do meu livro "A chuva, o parque, as flores e outras coisas" de 2009
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