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10 de out. de 2010


Todos os pacientes, sentados como pré-escolares em volta do tapete redondo, fitavam Arthur que falava e falava, mas não era muito compreendido por quem quer que fosse, o que tornava sua permanência naquele local um problema, afinal, ele estava ali para ser entendido. Era o único lugar que poderia recorrer caso buscasse um pouco de empatia.

Ao fundo, soava a música de Mozart, bem baixinho, quase imperceptível aos ouvidos humanos. Galão, do outro lado da sala, fazia anotações em sua prancheta. Era o único que parecia lidar bem com cada palavra que saía da boca de Arthur. Sequer precisava esperar o fim daquelas sentenças para criar as suas próprias, mentalmente enquanto o escutava atenciosamente. Era o único naquela sala que estava sendo pago para isso.

– Eu nunca fui popular. Nunca! Nem perto disso... Mas uma coisa eu posso garantir a todos vocês: eu sou legal, inteligente e, por Deus, eu sei como eu sou lindo. Por que diabos as pessoas não enxergam isso?! Eu me olho no espelho o tempo todo e ainda aprecio o que vejo. Já se passaram vinte anos desde que me formei e ainda assim continuo encantador. Queria que os outros também me valorizassem.

– Ok, companheiro – a voz de Galão interrompia, pela primeira vez, sua linha de pensamentos. – Eu não vou discutir acerca de sua maneira narcisista de enfrentar seu rosto no espelho. Você não tem problema de autoestima e isso já é meio caminho andado aqui. Fico contente, mas agora estou tentando alcançar a raiz do problema.
– Então não sei o que você quer que eu diga, doutor – respondeu Arthur.

Arthur Amos Kalapodopulos, quarenta e dois anos de idade, possuía origem grega e, à primeira vista, era o típico cara que as mulheres chamariam de “deus grego”. Bonito, moreno, olhos claros, alto, nem gordo, nem magro. Era um desafio para o doutor Giuseppe Galeano, mais conhecido por Galão, de fato, encontrar a tal raiz do problema.

Que problema poderia haver? Como um homem tão maduro e charmoso jamais conseguira agradar as pessoas desde quando era apenas uma criança jovem e charmosa? O quão idiota era a humanidade por não gostar daquele cara? Ele não fazia ideia, mas, até que descobrisse algum motivo, não deixaria Arthur, ou qualquer outro de seus pacientes, descobrir sua vulnerabilidade como psiquiatra.

– O que é personalidade? É tudo que somos, misturados com o nosso ingresso ao social. Todos têm personalidade. Enquanto alguns não conseguem sequer sustentar a própria idéia, outros conseguem mostrar maior domínio e influência sobre as pessoas. Claro que este último não é o caso de ninguém nesta sala. – Finalizou com desdém.

– Tem gente que parece que já nasceu com o dom – tentou justificar um dos pacientes, timidamente.
– Todos os indivíduos são mais ou menos parecidos, porém marcados pela individualidade interior. São essas particularidades que diferem o sujeito A do sujeito B,  que caracterizam o que chamamos de personalidade. Claro que a nossa aparência física também influencia na escolha das pessoas que farão parte do convívio de um grupo.
– Então como você explica meu caso? – Alardeou Arthur.
– Ainda não explico. Estou trabalhando nisso. Primeiramente, vamos ter que enumerar as múltiplas inteligências de Gardner para ver em qual você se encaixa.
– Que besteira, doutor. Eu tenho um problemão aqui e você só precisa me ajudar a entender por que eu sou tão “inamigável”. Não preciso discutir múltiplas inteligências. Sei que inteligência não é o fator que me mantém longe das pessoas. Posso não ser o Einstein, mas estou longe de ser um total ignorante. Além do mais, tem tanta gente néscia no mundo rodeada de amigos que frustra toda essa teoria.
– Mas não é dessa inteligência que estou falando, criança.
– Não importa mais. Já cansei de ouvir isso. O problema não está na minha cabeça: está na cabeça do resto do mundo; portanto, o problemático não sou eu, são os outros. Você precisa curar o mundo para mim.
– Me escute, Arthur. Eu farei o que tiver que fazer e falarei o que tiver de ser dito. Acredite, o problema é com você e não com o resto do universo. Mas você precisa se ajudar também. Estou dando o meu melhor aqui.
– Melhor seria se você parasse de falar que vai fazer algo e realmente começasse a fazer qualquer coisa que seja.
– Alguém tem alguma contribuição sobre esse assunto? Algum pensamento para compartilhar? – perguntou Galão aos outros. – Não? Então vamos continuar. Olhe para mim, Arthur. Você tem quarenta anos, certo?
– Quarenta e dois!
– Você tem quarenta anos – repetiu Galão, ignorando a correção. – E nunca teve um grupo de amigos? Nem um melhor amigo em quem pudesse confiar?
– Não! Nada!
– Isso é triste, cara.
– Não venha me falar de tristeza. Por que acha que estou aqui?
– Você pode me chamar de amigo agora.
– Você é meu psiquiatra e está falando por falar. Não é a mesma coisa. Você não estaria nem me ouvindo se eu não estivesse pagando, então você não é um amigo verdadeiro. É só um prostituto das amizades.
– Então você vai ter que me dar um pouco mais de prazer, garotão.
    
Galão era um homem ruivo, com uma enorme barba vermelha que o fazia parecer com um bode. Também beirava os quarenta anos de idade. Sua silhueta esbanjava uma considerável barriga de cerveja e era um tanto escandaloso. E ele tinha que ser: seu trabalho exigia. Lidava com um grupo de pessoas introvertidas que buscavam uma solução para seus defeitos. Para ser o salvador desse pessoal, era  fundamental que tivesse uma personalidade, no mínimo, mais extrovertida que a deles.

– Não acredito que você ainda tenha coragem de brincar com nossos problemas – interveio Eduardo, um dos pacientes.
– Ora, ora, Dudu. Sempre um prazer ouvir sua voz, exceto pelo fato que desta vez eu não pedi sua opinião. Pedi?
– Na verdade, pediu. Você perguntou se tínhamos alguma opinião para compartilhar.
– Mas isso faz tempo. Sua chance de participar já expirou.
    
De repente, Amélia levanta a mão esperando uma oportunidade de opinar. Geralmente, não costumava dar parecer algum durante as sessões e nem Galão costumava reparar nela ou pedir para que falasse. Na realidade, sua iniciativa surpreendeu a todos.
    
– Vamos lá, Amélia, mostre-me o caminho.
– Bem, eu queria falar diretamente para o Arthur, então vou dizer tudo de uma vez: Arthur, eu não te conheço. Não sei absolutamente nada sobre você, a não ser o que você nos conta aqui; logo, não tenho condição alguma de fazer julgamentos sobre sua pessoa. Mas você parece ser um cara bem legal e eu ficaria mais do que enaltecida em convidá-lo para tomar um café qualquer dia desses.
– Não, não, não, Amélia – desaprovou Galão. – Você não pode chamá-lo para sair. Essa não é a solução. Estamos aqui trabalhando duro para que ele se cure e seja capaz de conseguir as garotas que ele quiser sozinho. No entanto, você pode me fazer um favor e trazer um café para mim. Mais alguém aqui quer café?
– Seu miserável – gritou Amélia, com o rosto vermelho de vergonha, enquanto corria para fora da sala.
– Não devia ter feito isso, doutor. Além do mais, você nem sabe se eu gostaria de tomar café com aquela mulher.
– Você não gostaria, Arthur.
– Ah, não? E como você garante?!
– Devia me agradecer. Estava apenas te salvando de ficar sem jeito por ter que inventar uma desculpa qualquer, que por sinal ela não se convenceria, ou pior: de você ter que aceitar o pedido contra a sua vontade. Além do mais, se realmente quisesse, teria dito isso a ela, em vez de ficar aí parado me vendo perturbá-la.
– Você é nosso psiquiatra. Achei que seu trabalho fosse nos dar mais confiança sobre nós mesmos.
– É isso que eu faço, Arthur. Amélia deve estar planejando a grande mudança de sua vida agora e só para me mostrar o quão babaca eu sou e o quanto ela não precisa de mim. Vai ser um grande passo para ela. Eu, sinceramente, não me importo de perder uma paciente, se for para o bem dela.
– É só o meu nariz ou o de vocês também consegue sentir o cheiro de demagogia nesse discurso?
– Eduardo, eu já disse. Teve sua chance de falar e perdeu. Agora fica quieto.
– Esqueci que estamos em uma droga de jardim da infância – gritou.
– Muito bem! A conversa está adorável, mas agora é hora de vocês pegarem na mão do tio, porque nós vamos pra rua – afirmou Galão, já entreabrindo a porta.
– Ah, não! Ele vai nos envergonhar de novo. Eu odeio ir para a rua com esse cara – desabafou Júlia. Era a primeira vez que se pronunciava desde o início da sessão.
– Finalmente a senhorita falou.
– Eu já devia ter ido embora. Não pertenço a este lugar.
– Ao nosso grupinho ou ao mundo? Porque se estiver com tendências suicidas, teremos que reavaliar suas pílulas.
– Não se empolgue tanto, doutor. Eu me referia a essa estúpida sessão.
– Você tem o problema e eu tenho o diploma. É por isso que você vem até mim dizendo que não consegue olhar nos olhos das pessoas e eu te digo o que fazer.
– E por que não diz? Parece que você não faz ideia de como nos ajudar. Você não consegue nem curar a si mesmo. Olhe para você. Todo desequilibrado. É mais louco que qualquer um aqui.

Galão atirou uma cadeira ao chão e depois aplaudiu a si mesmo.

– É fabuloso como todos se transformam em psiquiatras quando são os pacientes. Criam todo o tipo de teoria e fórmulas mágicas. É patético. Bom, vou ao banheiro e já venho buscá-los para nossa tarefa de hoje. Se comportem na minha ausência. – e saiu batendo a porta.
 – Aposto que ele deixou um gravador para ouvir depois o que nós falaremos sobre ele – disse Eduardo.
 – Não seria de se espantar que ele se divirta com isso – respondeu Arthur.
 – Por que homem é tão idiota? – perguntou Júlia. – Esse cara é obviamente uma fraude. Por que vocês ainda estão aqui, seus idiotas?
– E por que a senhorita também está aqui? Pode ir embora quando quiser. Você não está colada na gente.
– Só sei de uma coisa – disse Arthur educadamente. – Eu só fico porque eu preciso disso. Estou aqui discutindo com pessoas que não conheço direito. É a primeira vez que faço isso, que posso ser eu mesmo. Eu nunca tive a chance de discutir com alguém. Meus argumentos nunca foram sequer considerados. É triste constatar, mas eu preciso desse lugar para me sentir parte do mundo.
– Isso é doentio. Somos um bando de doentes sendo tratados por um demente.

Não havia muita escapatória. Galão insistia nas atividades ao ar livre. Parecia sempre se divertir loucamente enquanto colocava seus pacientes em situações constrangedoras. Cada um deles, por sua vez, já estava se acostumando com aquela condição. Se por um lado não desejavam ali estar, menos ainda queriam ir embora.

O grupo se reuniu em uma mesa do lado de fora de uma lanchonete no Centro da cidade. Portavam-se de modo apreensivo enquanto seu psiquiatra olhava os transeuntes ao redor, procurando por um alvo certeiro que serviria de cobaia à próxima dinâmica do grupo.
    
– Estou feliz por vocês todos terem vindo – disse Galão.  – Isso mostra o quanto vocês querem que eu os ajude.
– Ou o quão sem opção nós estamos.
– Eu só quero ir para casa – resmungou Júlia, sem coragem para sair de lá.
– Vamos lá, pessoal. De quem é a vez hoje?
– Minha que não é – gritou Eduardo.
– Ninguém se voluntaria? Arthur, você é o meu escolhido.
– Ah não, Galão, só eu tenho que fazer essas coisas?  Deixa os outros participarem da sua dinâmica também. Caso contrário, eu estou tendo um tratamento vip com você.
– É muita bondade sua se preocupar com o nosso dinheiro – ironizou Eduardo. – Mas, ainda assim, eu passo.
– Melhor – completou Galão. – Você é o único aqui com potencial, Arthur. Vou te dar uma tarefa bem fácil desta vez. Pode ser?

Desde que descobriu o trabalho que Giuseppe Galeano desenvolvia com o grupo de pessoas tímidas e excluídas do mundo, Arthur se sentia em casa. Finalmente tinha um lugar em que podia falar e ser ouvido. Apesar das tarefas pouco ortodoxas que Galão designava para seus pacientes como forma de se soltarem, Arthur compreendia que estava mudando como pessoa e não queria perder isso.

Respirou fundo. Sabia que a história de ter grande potencial não era verdade. Lembrava-se bem do dia em que Galão levou o grupo ao teatro. Eduardo era, até então, o grande preferido do psiquiatra que mandou o garoto, tremendo mais que gelatina em dia de terremoto, subir no palco e interromper a apresentação fazendo uma espécie de stand up por dois minutos (ou pelo tempo que conseguisse ficar ali até ser chutado para fora do palco).

Houve vaias por todos os lados que não cessaram até que o ator principal da peça interveio; indagou se Eduardo estava ali pagando uma aposta e perguntou de quanto era a tal aposta. Supôs que devesse ser de, no máximo, cinquenta reais. Então tirou o dinheiro do bolso e o jogou por cima de Eduardo, que saiu correndo do palco. A plateia aplaudia o encerramento do incidente, e Galão, orgulhoso do garoto, batia palmas o mais alto que podia em pé na primeira fila.         

– Vamos lá! O que ele tem que fazer hoje? – perguntou Júlia.
– Agora que já sabe que não precisa ir fica aí toda curiosa, não é? Arthur, o negócio é o seguinte: quando estiver preparado, eu aviso. Vou levar o tempo que for necessário para dar a instrução.
– Isso é ridículo! Tanto suspense para, no fim, dizer que eu tenho que roubar a carteira de alguém e falar que só devolverei caso ela tope sair comigo.
– Pelo menos você não conhece esse povo – disse Júlia. – Pior foi quando ele me fez ligar para todos os meus ex-colegas, que me odiavam nos tempos da escola, e convidar cada um deles para sair. E eu só podia parar de telefonar quando algum deles aceitasse. Só terminei a tarefa quando cheguei ao final da agenda. Que humilhação!
– Bons tempos – interferiu Galão. – Bem, Arthur, não seja bobo. O senhor não vai roubar ou flertar com ninguém. Estamos muito além disso. Vê aquela rodinha de homens conversando em frente à lanchonete? Eu só quero que vá até lá, entre na roda e converse com eles por cinco minutos. Vou controlar seu tempo e quando eu assoviar bem alto é porque está na hora de você se despedir e voltar para cá. Legal?
– Não. Isso não me parece muito legal. Não sei se consigo manter uma conversação com desconhecidos por tanto tempo.
– Você não consegue essa proeza nem com um grupo de conhecidos. É por isso que está aqui. Para aprender a se soltar e ser feliz. Agora vá.

Arthur fez o Sinal da Cruz e seguiu em direção à roda. Não acreditava que estava pagando para fazer papel de bobo em público. Não era a primeira vez que enfrentava uma tarefa como essa, mas cada vez era um novo trauma. Sabia que jamais conseguiria penetrar no grupo e se tornar o “Sr. Cara Legal” em poucos minutos. Nem em muitos.

Fitou os rapazes que pareciam entrosados, conversando e rindo alto e não conseguia pensar em uma abordagem. Não sabia como entrar ali. Olhou para trás e viu Galão, Júlia e Eduardo olhando para ele, empolgados. Sentindo-se pressionado, entrou de uma vez no meio da roda.

– Olá, rapazes. Viram o jogo ontem?

O grupo olhou incrédulo para Arthur, que não sabia o que fazer com a cara, e, por isso, encarou o chão. Pairou um silêncio no ar, mas, na mente de Arthur, eles gritavam “quem-te-chamou-aqui? Vai embora, seu cuzão”.  Em seguida, voltaram a conversar, ignorando o corpo estranho que adentrou ao grupo sem razão aparente. Arthur permaneceu parado por um tempo observando-os enquanto conversavam. Não ganhou abertura para falar mais nada. Olhou para Galão que não assoviava nunca e resolveu sair da roda por conta própria.

– Sinto muito! – resmungou se aproximando do psiquiatra – Eu sou um inútil mesmo.

Fora recebido com olhos críticos e enigmáticos. Parecia que todos confiavam nele para aquela missão e ele havia arruinado tudo. Podia sentir que estavam desapontados e Arthur não os culpava por isso.

– Pare de se julgar! Sou eu quem deve fazer isso. Agora vamos refletir sobre a situação. O que você disse quando entrou na turma?
– Não lembro. Algo sobre jogo de futebol.
– Aí está o primeiro erro. Não se chega falando aleatoriamente de jogos. Você sabia que não havia jogo algum. Eles também sabiam... Foram até muito simpáticos por não terem te expulsado logo de cara. O que mais você disse?
– Mais nada.
– Segundo erro. Ficar ali parado olhando o relógio a cada dois segundos. Era eu quem devia controlar o seu tempo.
– Eu não estava controlando. Só estava sendo tão ignorado que eu fui praticamente obrigado a fingir que não me importava com eles por ter algo melhor para fazer. Mas o que mais eu poderia ter para fazer ali? Nada! Nada além de olhar para o relógio e fingir que para mim aquele ato era mais interessante do que conversar com eles.
– Bem, foi uma tentativa. Conseguiu se libertar. Ainda estou orgulhoso, mesmo que não acredite. E agora, Eduardo e Júlia, já que não quiseram libertar suas mentes, podem se libertar de mim por hoje.
– Achei que grupos de autoajuda fossem gratuitos, mas esse não é – provocou Júlia.
– Esse é bem carinho – concordou Eduardo.
– Isso não é grupo de autoajuda. Eu, como psiquiatra de vocês, poderia tratar de cada um individualmente, mas como o problema é sempre o mesmo, resolvi que terapia grupal é a melhor opção. É para o beneficio de vocês mesmos.
– Especialmente para o seu bolso – ironizou Eduardo.
  
Júlia e Eduardo foram embora, resmungando. Arthur pegou a direção oposta. Quando chegou à porta de casa, sentiu uma mão em seu ombro. Ao olhar para trás, deparou-se com Galão, que dizia que ainda precisava falar com ele em particular. Arthur temia precisar implorar por mais amizades desconhecidas, mas o psiquiatra garantiu que iriam apenas conversar.

– Vamos lá, garoto. Agora que os outros se foram, pode me contar tudo sobre ela.
– Sobre quem?
– A garota.
– Mas que garota?
– Aquela que você está a fim. Toda essa vontade de mudar, preocupações com sua aparência, esta aceitação de desafios sem reclamar e tudo mais. Tudo isso é por uma garota, certo?
– Errado. Não quero ninguém.
– Você já teve uma namorada?
– O que está fazendo, doutor? Por que veio até minha casa? A consulta já acabou e a próxima é só semana que vem.
– Você não aguenta mais uma semana sem vida social e eu sou a única vida social que você tem. E não estou cobrando extra.
– Então está dizendo que vai ser meu amigo agora?
– Mas ainda sou seu doutor. Agora vamos, temos que pular da ponte.
– Ficou louco?! Eu não quero morrer!
– Não vai morrer. Temos os equipamentos necessários.
– Você acha que isso é mesmo necessário? Eu não vou ficar mais popular depois disso. Por favor...
– Estou brincando. Não vamos pular, só vamos ao bar. Pode parar de chorar agora.
– Não estou chorando. E odeio esse tipo de brincadeira.
– O senhor também odeia lugares lotados, mas aposto que agora o bar lhe parece bem mais aprazível.
– Você quer acabar comigo. Só pode.

No boteco, Galão acendeu um cigarro enquanto servia as bebidas. Arthur não fumava ou bebia, mas resolveu que seria uma boa oportunidade para experimentar. Seria inútil inventar que bebia apenas socialmente. Galão riria com a ironia da sentença.

– Em primeiro lugar, me desculpe por ter duvidado quando você disse que não havia garota alguma. Você não estava mentindo.
– Eu te disse.
– Mas não precisa ficar com vergonha de me falar sobre o cara.
– Ei, ei, espera aí. Que cara? – gritou Arthur.
– Aquele que você está a fim.  
– Eu não estou a fim de ninguém. Ficou maluco? Está me chamando de “viado”?
– Não estou insinuando nada. Agora, não tenha medo, conte-me tudo.
– Não tenho medo de contar coisa alguma. Apenas não tenho o que contar.
– Mentira! Eu te conheço melhor do que você mesmo se conhece. Meu trabalho é entrar na mente das pessoas e consertar o que está errado.
– Então conserta minha timidez, minha falta de perspectiva, meu narcisismo, o que preferir. Seja meu amigo,convide-me para sair, mas nunca me chame de gay.
– Você não está ouvindo sua voz interior. Já percebeu que expressou um desejo de sair comigo, um homem, na mesma sentença que usou a palavra "gay"?
– Ótimo. Agora pensa que eu tenho uma queda por você. Ou vai dizer que estou te usando de modelo para uma futura relação homossexual? Eu não sou nada disso. Aliás, foi você quem me seguiu até em casa e me chamou para vir ao bar, então quem está interessado em quem, hein?
– Vamos com calma, Arthur. Está nos analisando agora?
– Você é gay ou não é,doutor?
– Bem, eu não recusaria o Antonio Banderas, se é que me entende, mas não sou gay. Sou casado e tenho três filhos.
– Também não sou! Eu só quero ir para casa.
– Não seja bobo. Na nossa idade, só queremos ficar longe de casa. Está vendo aquela stripper? Foi minha paciente há muito tempo atrás. Olha como está curada hoje. Quer que eu lhe apresente?
– Preciso vomitar! – Arthur correu para o banheiro e Galão foi atrás.
– Se estiver esperando uma relação amorosa mais consistente você devia tentar a privada, Arthur. Não vai conseguir muita coisa do amigo mictório.
– Eu nunca mais vou beber na minha vida.
– Bobagem! Só não está acostumado com esse estilo de vida, mas você tem quarenta anos e é solteiro. É hora de mudar alguns velhos hábitos. Agora levanta do chão que você tá parecendo um maldito derrotado pela vida.
– Qual minha próxima tarefa? Gritar para quem quiser ouvir o quão ridículo eu sou?
– Você não está numa sessão. Somos dois amigos bebendo em um bar, logo, não precisa fazer nada estúpido. Pelo menos não sob o meu comando.
– E sob o meu?
– Nem bêbado colocando as tripas para fora você conseguiria. Termina logo o que está fazendo e vamos embora. A pé.

A noite estava úmida e ameaçava chuva. Galão deixou seu paciente em casa e foi embora assoviando. Arthur tentava arrumar a cama para se deitar, mas mal conseguia manter-se em pé sem cambalear. Deitou-se com a roupa do corpo mesmo, procurando uma posição confortável para, finalmente, poder dormir em paz.

– Meu quarto está uma zona. Onde enfiei o lençol? E este travesseiro está tão sujo. Queria ter uma mulher só para lavá-lo para mim. Seria tão mais fácil dormir se o quarto parasse de girar e girar e girar... Que diabos acontece comigo? É isso que eles chamam de ressaca? É tão desagradável que eu podia morrer agora mesmo. É assim que funciona a mente de um ébrio? Um turbilhão de pensamentos inúteis circulando mais rápido que o ponteiro dos segundos? Minha cama é tão desconfortável. Só teria sentido passar uma boa noite aqui se eu gostasse de dormir no roda-roda, no carrossel... Eu devia ligar para o Galão e agradecê-lo por ter me levado ao bar. Não, o que estou dizendo? O cara diz que vamos pular de uma ponte, depois vamos a um bar de quinta, tenta me arranjar uma stripper e, por fim, me faz beber a noite toda, vomitar tudo o que eu com muito custo consegui engolir e agora, por causa dele, minha cama tá rodando. Muito obrigado, seu Galo Velho! Obrigado por me fazer mais miserável hoje do que de costume... Por que veio aqui? Você quer mesmo ser meu amigo? Eu sou o pior tipo que existe para se ter amizades, eu sou nada, sou uma contradição ambulante, sou um vomitador ambulante, sou um carneirinho, zzzz...

Em seu apartamento, na manhã seguinte, Galão roncava forte quando o telefone tocou. Tateou o criado-mudo na procura do celular e quando finalmente o alcançou, percebeu que o som vinha do telefone fixo. Cruzou o corredor, ainda dormitando e, quando a ligação já estava a ponto de cair, apressou-se e finalmente atendeu. 

– Alô?
– Você está certo. Eu posso estar apaixonado por um homem.
– Arthur? – falou, bocejando.
– Só não vamos discutir isso pelo telefone. Preciso falar com você o quanto antes.
– Quem é o cara? Eu o conheço?
– Não sei. Talvez.
– Eu sabia. É o Eduardo, não é?
– Não! O quê? Não! Não me faça falar pelo telefone. Esteja a caminho – e desligou após explicar-lhe o ponto de encontro.

Em frente a uma cachoeira onde pássaros cantavam e os escaldantes raios de sol despontavam, Galão localizou Arthur sentado numa pedra, batendo os pés impaciente, alternando o olhar entre o relógio e o céu.

– Eu vim o mais rápido que pude – gritou Galão se aproximando. – Porém meu GPS levou um tempo até conseguir encontrar este fim de mundo.
– É um pouco afastado, mas é bom.
– Entendo que não queira ninguém ouvindo nossa conversa, mas precisava mesmo sair da cidade?
– Não quero correr riscos.
– Quanta paranoia. Mas tudo bem, pode dizer quem é o cara.
– Ainda não quero contar. 
– Por acaso sou eu?
– Não! – gritou Arthur. – Céus, por que pensou nisso? Não! De jeito nenhum! Por que está tão desesperado para ser o meu cara?
– Você liga para um homem às seis da manhã pedindo que ele te encontre perto de uma cachoeira, diz a ele que é gay e não quer que ele pense que é o cara?
– Olha, em primeiro lugar, eu não sou gay. E depois, tem uma considerável diferença entre ligar para um homem qualquer nesse contexto e ligar para você. Céus! É meu psiquiatra. Com quem vou conversar sobre essas coisas senão com você?
– Ok, vá em frente.
– Então... Eu acho que estou gostando de um homem.
– Isso você já me disse.
– E eu não sei o que fazer.
– Eu sei que não sabe. O que mais?
– Ótimo! Você ficou bravo comigo. Tá bom, eu gosto de você também. Feliz agora?
– Você é engraçado, rapaz. Eu não estou bravo, pelo contrário, estou muito interessado no seu relato. Continue, por favor.
– Não tenho muito para relatar. Ainda não fiz nada.
– De uma vez por todas, quem é o cara?
– Meu vizinho, o Roberto.
– Tanto segredo e eu nem conheço a pessoa.
– Ele é loiro, olho azul, alto, deve ter uns quarenta e tantos anos e parece ser bem sério.
– Ihh, quanto clichê do homem perfeito nessa sua descrição física. E quando começa a falar assim... É porque a paixão já tá grande. Você é amigo dele?
– Está me zoando? Você sabe que não sou amigo de ninguém.
– Claro, claro, pergunta idiota. Há quanto tempo está apaixonado por esse cara?
– Desde ontem, após nossa conversa no bar.
– Então não está apaixonado. Está só confuso.
– Eu acho que gosto dele, sim. Quero dizer, faz um tempo que eu reparo nele, mas nunca tinha percebido isso até você sugerir minha nova condição.
– Por que você gosta dele?
– No começo, acho que só o idolatrava. Mas reparei que não havia absolutamente nada nele que eu pudesse idolatrar. Ele não é artista, nem nada do tipo.
– O que ele faz da vida?
– Não faço ideia.
– É casado? Tem filhos?
– Nunca o vi com ninguém.
– Já falou qualquer coisa com ele?
– Você sabe que não.
– Nem oi e tchau?
– Desculpe, mas não.
– Assim fica difícil. Temo até perguntar se sabe alguma coisa sobre os interesses dele.
– Então nem pergunte.
– O que o faz acreditar que você gosta de seu vizinho?
– Suas palavras. Você foi tão categórico sobre meus desejos homossexuais que eu pensei que talvez fosse verdade.
– Isso é sério. Não pode ficar confiando cegamente em mim. Precisa também ouvir sua voz interior.
– Ela não está me dizendo nada.
– Fora o fato de eu ter falado que você é gay e desconsiderar que você faz tudo que eu mando, há outra razão para acreditar que está apaixonado?
– Bem, às vezes eu o observo cuidando do jardim.
– Por quê?
– É uma cena atrativa para mim.
– Acha-o atraente?
– Não sei... Eu não o recusaria, se é que você me entende.
– Quer tentar?
– O quê?
– Uma ficada, um romance, sei lá - chame como quiser - com ele?
– Não. Eu não quero ter coisa alguma com homem nenhum, doutor.
– Então o que quer de seu vizinho?
– Sair, tomar umas cervejas, ser amigo, assistir ao jogo, fazer uma festa do pijama...
– Estão velhos demais para uma festa do pijama, mas, definitivamente, podem ser amigos e ver TV.
– Sério?
– Certamente! Só temos que pensar na abordagem perfeita. Não pode bater na porta dele e pedir para serem amigos. Vocês não têm mais dez anos.
– Então como criar um vínculo?
– Mas não quer nada mesmo além de amizade?
– Não! Apesar de que... Se algo acontecesse, seria minha primeira experiência.
– Com um homem?
– Não, minha primeira experiência na vida.
– Nunca me disse que era virgem.
– Nunca me perguntou.
– Eu supus que já tivesse, ao menos, brincado com mulheres. Afinal, não precisa ter amigas ou namoradas. Basta ter dinheiro.
– Não quero pagar por isso.
– Eu posso te arrumar uma garota. Vai com ela primeiro.  Só então você será capaz de comparar e decidir o que prefere.
– Sem ofensas, doutor, mas não curto o tipo de garotas que você conhece. E eu não quero.
– E o vizinho Roberto? Você o quer?
– Ser amigo? Sim! Ter algo a mais? Não sei.
– De qualquer modo, para ser seu amigo ou amante, primeiro precisa conhecê-lo. Vamos investigar esse homem.
– Não sei se consigo. Estou gelando. Acho que vou desistir de tudo.
– Tsc, tsc, tsc, parece que você tem treze anos. Siga-me.

A casa de Roberto era separada da de Arthur apenas por uma cerca não muito alta. O acesso era fácil e a visibilidade quase total. Ainda assim, os dois nunca trocaram cumprimentos ou favores. Galão e seu paciente pularam a cerca e espiaram a janela da sala, procurando por pistas que os ajudassem a esclarecer quem era aquele misterioso vizinho.

– Não acredito que estamos de fato espiando a casa desse homem – disse Arthur.
– Shh!
– E não me faça shh quando você sabe que estou certo.
– Esta é sala de estar. Não tem brinquedos jogados. É sinal de que não tem filhos.
– Talvez os filhos não sejam mais crianças.
– De qualquer modo, isso é bom. Indica que já estão criados e, logo, não vão se importar se o pai resolver adquirir um novo estilo de vida.
– Espero que ele não tenha filho algum. Não quero lidar com enteados.
– Não vão ser seus enteados a essa altura da vida. Não vão ser nada seu. O que eu espero é que ele não tenha esposa. Isso sim complicaria as coisas.
– Vamos conferir a janela do quarto para descobrir.
– Não acho que seja uma boa ideia, Arthur.
– Por que não, doutor?
– Se formos pegos, vamos para a cadeia.
– Você? Preocupado com questões ilegais? Isso é novidade para mim.
– Alguém tem que ser o doutor responsável aqui. Se quer olhar o quarto dele, seja breve.

Atravessaram o jardim e alcançaram a janela do quarto bagunçado em que Roberto dormia pesadamente em uma cama de casal.

– Viu? Ele está sozinho! Não é casado!
– Que ele está sozinho, estou vendo, mas se é solteiro, ainda não podemos  assegurar.
– O quarto não tem cortinas. Que sorte! E a decoração é muito masculina para ser compartilhada com uma mulher.
 – Agora vamos. Já são quase oito horas. Não sabemos em que horário ele costuma acordar – ordenou o psiquiatra.

Arthur continuava lá parado, imóvel, com o nariz esmagado contra a vidraça, apreciando a cama de Roberto.

– Vamos, Arthur!
– Só mais um segundinho.
– É inacreditável. Pare de encarar esse homem. Temos que ir.
– Não estou encarando. Estou apenas olhando ao redor.
– A única coisa que está olhando é o rosto dele. Pare com isso! É constrangedor.
– Por que está tão incomodado?
– Você não pode olhar um homem enquanto ele dorme. É contra as regras do mundo.
– Ah, é? E quem criou as regras? Deus?
– Não é que esteja na lei, mas todo mundo sabe que é imoral encarar um homem em sua cama. E, para piorar, é completamente ilegal invadir seu quintal.
– Eu devia tocar a campainha.
– E vai pedir uma xícara de açúcar? Não seja ridículo, Arthur.
– Acho que preciso de um drink para pensar melhor.
– Fora de questão! Não vai beber! Já está muito corajoso hoje.
– Então me mostre o que fazer.
– Vamos até sua casa para conversarmos melhor sobre isso.
– Eu não quero conversar. Eu quero amor.
– Aquele homem não vai te dar amor algum neste momento.
– Quero ir a Paris e me tornar um boêmio.
– Isso você pode fazer! Planejaremos sua viagem em casa, ok? Vamos sair deste jardim agora.

Com muita dificuldade, Galão conseguiu empurrar Arthur de volta até sua casa. Entraram pela porta da cozinha, onde o convidado não pôde deixar de perceber a enorme quantidade de comida congelada e pacotes industrializados espalhados por todos os cômodos. A bagunça também era atormentadora. Nem que se esforçasse muito não conseguiria deixar de reparar.

– O que tem para comer, garoto? Eu to com fome. Saí de casa sem tomar café da manhã.
– Sei lá. Veja aí o que tem. Sinta-se em casa.
– Pelo visto você não gosta muito de comida saudável.
– O que faremos quando ele acordar?
– Esquece ele agora. O que vamos comer?
– Escolhe o que quiser.
–  Mas só tem porcaria congelada pra escolher. Não tem algo melhor, não?.
– Tipo o quê?
– Tipo qualquer comida que precisa ser cozinhada.
– E essa sua barrigona engana a quem, hein? Só inventou de comer saudável agora para me atazanar.
– E por que isso te atazanaria?
– Você sabe...
– Sei o quê?
– Ah, Galão, pare com isso. Por que está me dando esse olhar?
– Que olhar?
– Esse que você faz enquanto está me julgando, analisando ou rindo por dentro.
– Não estou fazendo nada disso.
– Está me persuadindo a confessar que sou um inútil que não sabe cozinhar.
– Bingo!
– Vá em frente! Mostre-me o quão desprezível eu sou para o resto do mundo. Queria um motivo para eu ser excluído da sociedade, eis aqui o seu motivo.
– Não o culpo. Nunca teve uma namorada, mãe ou amiga para ensiná-lo.  Nunca precisou fazer, pois sempre se contentou em descongelar porcarias pouco nutritivas. Não sei  nem como você consegue ser magro comendo tão mal assim. 
– Mas isso não é tudo. Também não sei trocar pneu, consertar uma pia, nada que um homem decente saiba fazer. Vou me aproximar do Roberto para quê? Só se for para ele rir da minha cara! Eu prefiro morrer!
– Não fala besteira. Você não quer morrer. Só quer aprender a fazer essas coisas.
– É, mas agora é tarde demais.
– Que nada! Eu te ensino a fazer o que você quiser. É claro, se eu souber. Também não sou nenhum sabe-tudo, né?
– De qualquer modo, é óbvio que eu não poderia transar com o Roberto. Você sabe que na hora H eu não saberia o que fazer. 
– Essa parte é intuitiva, mas se quiser, eu posso te ensinar isso também... Digo, eu deixo você treinar em mim e quando chegar o momento, já saberá o que fazer.
– Não pode estar falando sério.
– Se você quiser, eu não me importo em fazer.
– Bem... Não é que eu quero, é que eu preciso, ok?
– E não é que eu queira também, mas como você precisa, é meu trabalho ajudá-lo.
– Certo!
– Certo!
– Agora, doutor?
– Acho que o quanto antes você aprender, melhor, não é?
– Acho que sim.
Eles respiraram fundo.
– Onde fica o seu quarto?


Conto do meu livro "A chuva, o parque, as flores e outras coisas" de 2009
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