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22 de ago. de 2008



Na nova Brasília, em meados dos anos oitenta, muitas coisas ilegais aconteciam para todo mundo, menos para Renato. Garotos resgatavam o entusiasmo dos anos cinqüenta com roupas de couro e topetes Rockabilly. Para ser adolescente e não morrer de tédio na cidade era preciso usar a imaginação. Contudo, Renato ainda estava na fase de jogar Atari e brincar com seus Comandos em Ação. Contava apenas com onze anos e via o mundo de gente grande apenas pela fechadura da porta de seus irmãos mais velhos.

Uma vez espionou uma orgia entre garotas e garotos e, até o final de sua pré-adolescência, nunca mais fora o mesmo. Sonhava em ter uma garota na sua frente e um rapaz atrás. Mas aquele era só o início. Sua personalidade ainda não estava completamente moldada e ele era muito novo para moldá-la da maneira hardcore como queria.

Seu ídolo-mor era Leo Jaime. A princípio, gostava apenas da música, mas quando menos esperava, a voz suave que saía de dentro da vitrola não o envolvia mais e se flagrava reparando apenas nas pernas do músico no encarte do vinil.

Quando o tempo passou, e passou demais, Renato já não pensava mais no cenário punk rock que tanto o empolgara quando jovem. Nem em orgias ou farras homéricas que ele nunca havia experimentado. Tudo tinha mudado! Beirava os trinta anos e cursava sua segunda faculdade. Arquitetura na UnB. O primeiro curso foi pedagogia, mas não lhe rendeu nenhum emprego que gostasse e ele tentou novos rumos. Já estava na quarta namorada firme e vivia aparentemente normal.

Como cálculos não eram seu forte, procurou um estágio mais light para pagar suas contas enquanto não se formava e acabou dentro de um sebo arquivando pilhas de livros e discos, oito horas por dia, cinco dias e meio por semana.

À noite, encontrava Isabela, sua baby, para programas simples como tomar um milk shake e ir ao cinema. Em uma tarde como tantas outras, o sol estava escaldante e Renato não via a hora de ir à sorveteria do outro lado da rua. Quando faltavam dez minutos para fechar a loja, entrou um rapaz apressado.

– Maldito – pensa enquanto abre um sorriso falso no rosto.
O garoto pega uma pilha de vinis empoeirados de uma bolsa velha e joga tudo em cima do balcão.
– Você compra?
– Compro.
– Quanto me dá por doze discos?
– Depende de quem sejam e da qualidade de cada um.
– Eu tenho esses aqui – disse o garoto bagunçando a pilha.

Renato passou um a um, desanimado.

– Pô, Wando? Quanto você acha que eu vou pagar num disco do Wando? Quanto você pagaria? Dou três reais no máximo. Air Suplay? O que você anda ouvindo, garoto?
– Andava! Estão vendidos agora.
– Não tão cedo, se depender de mim.
– Vamos cara, tem raridades aí.
– Se para você um disco empoeirado dos Menudos é raridade...
– Tá! O do Menudos eu fico – o garoto puxou o disco começando a se arrepender de se desfazer de sua coleção.
De repente, Renato se deparou com um vinil do Leo Jaime. Há quanto tempo não ouvia esse nome?

– Olha, pensando bem, esse Leo Jaime aqui eu vou comprar. Mas só pago cincão.
– De jeito nenhum! Você está querendo tudo dado. Vou levar os meus discos de volta agora.
– Qual é, garoto? Leo Jaime! Que outro sebo em sã consciência vai comprar um vinil desse cara?
– OK! Mas por sete reais ou nada.
– Feito.

A noite toda passou escutando o disco e relembrando alguns sucessos. Quando se cansou da voz doce de Leo, foi assistir televisão. Zapeando os canais, parou em um programa de namoro. Deixou uns instantes, e viu que o cara ameaçava tirar a calça. Renato notou que não mudava o canal, pois estava realmente esperando que ele fizesse isso. Aquilo era demais. Será que estava mudando de time? Não conseguia sequer imaginar essa hipótese. Não poderia estar virando gay só porque quis ver uma cueca.
  
Passeando no dia seguinte com sua garota pela praça, nada do que ela falava parecia interessar mais do que observar a conversa de outros casais. Não via  a hora de se despedir da namorada para realizar um experimento que tinha em mente, mas que, para isso, precisava estar sozinho.
  
À noite, dentro de seu Ford, olhava para os lados fitando as pessoas. Todos de mãos dadas, sem se importar se estavam sendo vigiados. Renato ainda criava coragem, agachado e protegido pelo vidro fumê. Era sua primeira vez em uma balada GLS. Não sabia nem se estava vestido adequadamente. Já se imaginava dentro de um conto erótico. Sabia que entraria ali, mas não tão cedo.

Nem sabia como funcionava, se precisava de identidade, de dinheiro ou se deveria ter seu nome na lista. Respirou fundo e caminhou até a entrada. O sufoco diminuiu quando descobriu que não precisava de dinheiro para entrar (pagava-se apenas o consumo) e muito menos de nome na lista. Nem identidade lhe pediram. Apenas perguntaram seu primeiro nome e, sem seguida, entregaram-lhe um crachá em que lia-se "Renato". Guardou-o no bolso e entrou.

Lá dentro nem parecia um mundo diferente. Tinha banda, luzes, homens e mulheres, bar, mesa de sinuca. Até dava para entender por que o local era tão badalado até por brasilienses heterossexuais. Um homem mais velho caminhava sozinho, carregando um copo de gim-tônica nas mãos (ainda existe isso? pensou. A última vez que havia visto tal bebida foi em um filme dos anos cinqüenta). Renato não quis flertar com ele e não sabia se era por tê-lo achado velho ou se apenas queria alguma desculpa para fugir do desafio. Nem sabia se havia ido até lá para realmente ficar com alguém, mas, por outro lado, se não por isso, então para quê? A verdade é que nem o próprio Renato sabia.
  
Uma garota loira chamou sua atenção, mas não queria ir atrás dela. Para paquerar garotas, podia muito bem ir até a pracinha da cidade, embora isso não fosse muito indicado, já que ele tinha namorada. Por outro lado, achava que ficar com um rapaz uma única vez se encaixava na categoria "experiências da vida", deixando-o imune de ser enquadrado como um traidor.

Em dado momento, a loira voltou de mãos dadas com outra mulher igualmente atraente e perguntou se ele estava interessado em um threesome em um motel a poucas quadras de distância, mas Renato se sentiu obrigado a declinar a oferta.
   
Cinco copos de vodka depois, as visões começaram a melhorar. Apareceu um jovem de uns vinte e cinco anos que parecia ser uma companhia legal. Sem saber muito o que fazer, começou a rir para o rapaz, que o ignorou. Morto de raiva, Renato não podia acreditar que estava levando fora de um homem. Não queria tentar outra pessoa, para não se expor ainda mais. Faria isso uma única vez, portanto aquele rapaz mais jovem teria que ser a vítima. Era ele ou nada! Aproximou-se quando o jovem estava distraído e leu no crachá em sua camisa de marca o nome Maurício.
    
– Nome de gay – pensou, enquanto tentava arranjar algum assunto interessante para puxar, mas nada de bom lhe ocorreu. 

– Olá Maurício, hehehehehe, por que será que todas as pessoas aqui usam crachá?
– Olá, Zé? Talvez para que as pessoas saibam que nem todos aqui são os Zé- Manés.
– É... É Renato – disse sem graça. – enfiei o meu no bolso.
– Ah!
– É minha primeira vez aqui.
– Um virgem.
– Não, eu não sou virgem! É só a minha primeira vez em uma boate GLS.
– Que bom pra você.

Constatou que a única coisa de legal em Maurício era a aparência, pois como pessoa, era um chato. Ainda assim, Renato não quis desistir e tentou fazer graça, embora não fosse do tipo que arrancasse risada das pessoas.

– Esse negócio de crachá para saberem os nomes é uma coisa bem programa da Xuxa, né?
– Pois é. Beijinho, beijinho, tchau, tchau.
– Espere aí... É, então, as  pessoas aqui são bem frias, né?
– Não sei. Não saio encostando nelas pra saber.
– É... Falou então, Maurício, vou dar mais uma rodada por aí, ok? – e saiu gritando internamente, decepcionado. – Pô, eu levei um fora de um gay, de uma bicha, viadão.

Incerto, porém clandestinamente entusiasmado, Renato foi tentar outra pessoa. Nem escolheu por beleza dessa vez. Partiu para o primeiro cara que encontrou sozinho e foi tentar a sorte, da mesma maneira que um viciado em jogos gasta sua última moeda no fim da noite em uma maquininha mais ou menos. Aproximou-se do cara, que de perto parecia mais velho, e perguntou as horas. Ele fez um gesto com as mãos dizendo que não tinha relógio e desviou o olhar.
    
– Como vocês fazem aqui? – perguntou Renato.
– Como assim?
– Para ficar com homens. Essa é uma boate para gays e os homens pulam fora assim que alguém do mesmo sexo se aproxima.
– Meu irmão, tem que rolar química antes. Você tá pensando que só porque somos gays nós vamos sair agarrando qualquer um? Homem hétero fica com qualquer mulher que passa em seu caminho? Qualquer uma? Até as mais horrorosas? Não! Com a gente o lance é mais ou menos assim também.
– Ok! Já entendi – e saiu revoltado. – Onde é que está o Leo Jaime quando precisamos dele? Aquele cara legal, que transa cunnilingus e sexo anal, ao som de um Hully-Gully como soundtrack.

Esbarrou em outro rapaz, mas nem tentou nada. Apenas gritou olhando em seus olhos:
– Só tem viadão aqui. Merda de lugar.
– Para um frequentador dessa merda de lugar, não acha que você tá precisando evoluir como pessoa e rever alguns conceitos? Alguns conceitos, não, mas todos eles.
– Tenho tempo nenhum pra isso, irmão. 
    
Deixou a boate para nunca mais voltar. No percurso até a porta, e da porta até seu carro, olhou para todos os rapazes que cruzaram seu caminho em uma acanhada esperança de rolar uma milagrosa química, mas nada aconteceu. Na manhã seguinte, ignorou todos os telefonemas de sua namorada e saiu pelo shopping, pela praça e pelo mercado caçando homens, tentando descobrir qual seria a melhor abordagem para a hora da conquista. Tudo em vão. Parecia que todos cheiravam seu desespero e fugiam.
     
Em um momento de respeito próprio, decidiu que não correria mais atrás de ninguém. Ninguém que não fosse o Leo Jaime. Seu último suspiro no universo gay tecnológico foi um e-mail ao cantor, de conteúdo lascivo e até mesmo desrespeitoso. A resposta veio uns dez minutos depois: "Não interessa se eu sou gay ou não, o que interessa é que estou com um disco novo no site X. Ouve lá e diga o que você acha! Conto com a sua opinião. Abraço!".
    
Depois dessa, Renato desistiu. Não queria mais saber como seria uma relação homossexual. Ligou imediatamente para sua namorada e combinou de encontrá-la. Sua vida voltaria aos eixos agora. E seria tudo um segredo o que (não) houve antes, pois os únicos que sabiam era  Maurício, o outro rapaz das horas, e mais todos aqueles da boate, da pracinha, do mercado, do shopping, e o Leo.  É... Ainda bem que ele não era do tipo interessante para servir de fofoca pela cidade. Sua dignidade sobreviveria.

Todavia, não saiu ao encontro de sua garota sem antes mandar um feedback ao Jaime, parodiando a velha canção que outrora não saía de seu toca-discos e de seu coração: "eu tentei naquele site, você fugiu de mim. E eu pensei: a vida não presta. Você não gosta de mim."




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Ana Paula Seixlack